18 de abr. de 2006

Polichinelo estilístico no. I

[Soneto com mui vaga inspiração em Camões]

Que vem a ser o blog: uma tormenta
que varre-me do mar da sanidade
e imprime em meu amor à humanidade
tremores de homem que não se agüenta,

o orgulho que minha pena não sustenta?
Tortura que me gera a ansiedade
de que me leia o mundo de verdade,
mas sabe que o impossível não se tenta?

O blog que me aflige e que me insultua
(pois cobra o que jamais eu cobraria
de um mundo que me dá o que mereço)

é ao mesmo tempo a versão culta
do riso que meu rosto alumia
(surpresa!) sempre que eu esmoreço.

20 de mar. de 2006

Um sonho

(Só para tirar o mofo do blog.)

Foram no máximo uns dois minutos entre cochilar e acordar de novo. No meio disto, percebi que a minha alma estava solta dentro da minha cabeça. Podia me virar para um lado e para o outro dentro do meu crânio, oco e escuro, optando por olhar ou não através dos buracos dos olhos, iluminados desde fora por um sol que não se via. Do outro lado destas janelas, uma grama que se estendia ao longe e se encontrava com o céu; tudo em cores tão fortes que chegava a parecer um gráfico de computador.

O meu corpo voava e a grama passava rápida e sem atrito sob meus pés. O vôo parou e dois anjos de asas longas e pontudas desceram do céu e pousaram na minha frente. Os dois tinham cor de barro e tipo esguio. Eram praticamente imagens espelhadas um do outro e sua expressão facial era serena mas firme, como a de pinturas góticas. Cada um segurava uma espécie de alaúde ou violão, um de tamanho diferente do outro, e os cabos dos instrumentos quase se encontravam no espaço entre os anjos. Os anjos não se mexeram -- aliás, nem bateram as asas para descer do céu -- mas começaram a tocar uma música lenta que primeiro me soou melancólica e depois me deu a sensação de um cobertor numa noite fria. Percebi pelo som que um dos instrumentos era um violão, acompanhando; e o outro, era o quê?

-- Guitarra portuguesa! O anjo tá tocando guitarra portuguesa!

Foi o que falei para a minha mulher, não totalmente desperto mas subitamente me lembrando da presença dela. Ela disse "Tá" mas nem ligou, habituada a me ouvir falando em sonhos. Já eu não me esqueci mais das cenas: um par de anjos tocando fado, os olhos como janelas para a alma se debruçar.

10 de nov. de 2005

Mental boxing

Do Washington Post.

Aretha Franklin was teary-eyed, Carol Burnett was teasing, Alan Greenspan was reliably taciturn, and "The Greatest of All Time" stole the show when President Bush bestowed the Medal of Freedom on them and 10 others in a White House ceremony yesterday.

Bush, who appeared almost playful, fastened the heavy medal around Muhammad Ali's neck and whispered something in the heavyweight champion's ear. Then, as if to say "bring it on," the president put up his dukes in a mock challenge. Ali, 63, who has Parkinson's disease and moves slowly, looked the president in the eye -- and, finger to head, did the "crazy" twirl for a couple of seconds.

The room of about 200, including Cabinet secretaries, tittered with laughter. Ali, who was then escorted back to his chair, made the twirl again while sitting down. And the president looked visibly taken aback, laughing nervously.


Só para lembrar: o Ali foi preso por se recusar a participar da Guerra do Vietnã.

9 de nov. de 2005

Nova Iorque - parte 2

Um dia eu estava na fila para ir ao cinema e um sujeito veio me pedir dinheiro. Sim, dinheiro. Sim, isto acontece aqui, e -- pasmem! -- o cara parecia o Riquinho Rico com quarenta anos de vida e vinte e oito de bebedeira. Do longo monólogo do pedinte só entendi alguns trechos desconexos (a fala dele também era de quem bebia há vinte e oito anos), mas deles deduzi que ele estava com fome e frio; que ele não tinha dinheiro; e que ele fora expulso do seu abrigo porque tinham matado o seu irmão e ele tentara bater no assassino.

Talvez o leitor tenha treino específico ou até mesmo conselhos infalíveis para uma situação destas. Talvez as crianças nova-iorquinas sejam treinadas desde cedo para lidar com este tipo de situação ("Finja-se de morto e deixe que ele te fareje à vontade"). Da minha parte, eu não tinha muita idéia do que fazer. Mas não demorou muito e minha mão já tinha puxado o dinheiro da carteira, para espanto dos dois amigos que me acompanhavam e que tentavam duramente ignorar o pobre Riquinho. Ele, por sua vez, não se fez de rogado, pegou a nota, deu meia-volta e foi...

Não: ele parou depois de uns dez passos e voltou para perto de mim, o braço trêmulo esticado para a frente, a nota enrolada contra o meu peito.

--- Toma esse dinheiro de volta, porque se não eu vou levá-lo ao traficante e comprar crack!

O que faria o leitor experiente neste momento? Será que até mesmo o nova-iorquino adestrado tremeria ("Ih, acho que ele percebeu que estou respeirando!")? Eu quase ri da situação --- não me pergunte por quê --- e disse que não. Pedi e pedi e pedi que ele ficasse com a grana; disse várias vezes "God bless you" ou alguma outra coisa assim; tomei a mão dele e fechei-a em volta daquele um dólar (ou cinco dólares, sei lá) que eu tinha dado. Depois de algum tempo o sujeito ficou quieto, me olhou no fundo dos olhos de um jeito muito estranho, e foi-se embora.

Só agora no momento em que escrevo este texto é que este olhar final me parece fazer sentido. Foi decepção. Ele teve um minuto de lucidez, e desapontou-se porque eu não entendi que ele dificilmente teria outro.

8 de nov. de 2005

Deus, diz prá mim que isto foi sacanagem do cara

Comentário de um usuário do site Amazon.com sobre a gravação de Pablo Casalls para as Suítes para Violoncelo solo de Bach.

Lacks Accompaniment, June 28, 2005

Reviewer: Peter Gillette (Appleton, WI United States)

I think that Mr. Casals' playing is very fine but I was very disappointed that he chose to play these unaccompanied. Perhaps the pianist and chamber group could not be booked or miked appropriately due to the time. I was so disappointed in this production choice because the first and only other Bach cd I have, the goldberg variations by Uri Caine, blew me away: JS Bach was very ahead of his time in his use of electronic musics and freely improvised counterpoint and jazz musics, things that the rest of the "classical" world did not catch up to for another few centuries. Save your money on this one. Sorry, Pablo. I won't come to florida for you.

2 de nov. de 2005

'Não' em todas as línguas

A página da minha vida.

(Obrigado ao Mário AV, do Different Thinker pela correção: nicht virou nein.)

29 de out. de 2005

Nova Iorque - parte 1

Se eu fosse um verdadeiro jovem artista, estes cinco anos em Nova Iorque seriam um grande marco na minha vida. Era para eu estar escrevendo um livro sobre esta experiência formadora, ou então ter me tornado um monstro no improviso, ou ao menos --- se a bagagem burguesa me pesasse --- ter conhecido toda a galera "cool" e estar ajudando alguém a carregar seus pincéis ou amplificadores.

Mas eu sou matemático meio furreca que não é mais tão jovem, jamais foi artista, e nem curte tanto ser verdadeiro, e há um sentido muito profundo em que este meu tempo por aqui é uma péssima alocação de recursos para a humanidade. É o Destino regando uma samambaia de plástico. Bom, talve eu não seja 100% de plástico, mas não quis me deixar regar pelas águas negras do submundo para delas emergir assim bem, digamos, "United Colors of Bennetton". Sempre que o pessoal mais caretinha chega de Nova Jérsei para passar a noite aqui, vejo na cara deles que de Nova Iorque eles só conhecem os lugares errados, que eles entram tortos na cidade e saem daqui pensando que o barato do lugar é outro. Em última instância, a única coisa que me separa desta galera é eu ter consciência do que se passa e ter notado que a Vida não teve a cortesia de me botar uma plaquinha "Semi-artista? Entre aqui!" pelo caminho.

Anote, leitor, porque a informação é útil: quando você ouvir falar de alguém que no Brasil era um merdinha, mas que veio para NY e aqui evoluiu muito na sua arte, especialmente quando cheirou cocaína e trocou memórias de desenhos animados com um futuro grande nome da literatura japonesa (que naqueles tempos trabalhava como michê, é claro), pode ter certeza de que esta pessoa não sou eu.

3 de out. de 2005

Ceci n'est pas un chapeau

Talvez seja uma boa idéia avisar que o nome deste blog não tem nada a ver com o referendo do desarmamento.

22 de set. de 2005

Para que serve um blog que ninguém lê?

Para que o autor/dono se descubra um inconsciente semi-discípulo de Nietzsche ao ler seus próprios posts. Puta que pariu, esta história de confrontamento na religião é quase a vontade de poder.

Escrever faz a gente mudar de idéia. Neste caso, não totalmente.

16 de set. de 2005

Ah, sim

Foi por causa da seriedade da constatação do post anterior que deixei de me considerar católico por muito tempo. Agora tenho feito um pouquinho mais de força, com a ajuda de não ter mais de me preocupar com sexo antes do casamento.