Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

16 de jan. de 2007

Matéria (por São João Damasceno)


(http://www.ortodoxiabrasil.com/apologetica/faq.html)

“Antigamente, o Deus incorpóreo e desconhecido nunca era representado. Agora, quando Deus foi visto de perto em carne, e conversou com os homens, eu faço uma imagem deste Deus que vi. Eu não adoro à matéria, adoro ao Deus da matéria, que tornou-se material para minha salvação, e Ele habitou na matéria, por onde trouxe minha salvação. Não vou parar de honrar a matéria que trabalhou pela minha salvação. Eu a venero, apesar de não venerá-la como venero a Deus. Como poderia Deus ter nascido de algo sem vida? E se o corpo de Deus é Deus pela união, Ele é imutável. A natureza de Deus permanece a mesma de antes, a carne criada no tempo é parte de uma alma lógica e racional.”

(A imagem vem da Wikipédia.)

8 de jan. de 2007

A morte de AFP

Entrei no ônibus e sentei no fundo, ao lado de uma janela, e encostei a cabeça no vidro. Estava nublado e eu não conseguia ver os topos dos morros da Floresta da Tijuca, mas a luz baça que chegava às árvores preenchia os espaços entre elas, dourava-as, fazia-as saltar à vista com as copas infladas de claridade. Era como se a mata tivesse sido re-esculpida para realçar a delicadeza de cada galho se ramificando e afinando até chegar a um nada na ponta.

Lembrei da minha infância e de como me divertia olhar as coisas de dentro do carro em movimento: as árvores, uma mais a frente e parecendo andar mais rápido que a outra; a placa por detrás de outra que depois se exibe; os pedestres, conversando agitados, caminhando para trás; as casas de que se vê um pouco do interior, meio misteriosas e às vezes bonitas. Era um momento singelo e quase feliz, mas eu estava a caminho do Cemitério São João Batista para o enterro do meu amigo A.

-x-x-

Meu amigo A era flamenguista, trotskista, idealista, membro do PSTU, bom de garfo, bom leitor, bem humorado, de opiniões seguras, leal. Se eu escrevesse a história da vida dele, o desfecho seria uma morte causada por uma destas características, nobre ou no mínimo bastante pitoresca, que chegasse a parecer melhor do que as vidas dos que ficam. Mas a morte de A foi quase indigna do personagem: sei que ele gostava muito do off-road, mas um acidente de carro não era o jeito certo de concluir a trama.

A notícia chegou a mim via Internet e à minha mulher pelos meus gritos logo depois. Fiquei bastante tempo perdido, preenchido por uma água negra, parada e fétida. Mas existe o mundo do Lado de Fora (o Lado de Fora físico e metafísico), que é daonde realmente me vem a paz. Ainda no ônibus eu não conseguia pensar direito nas coisas, mas pelo menos a alma já estava secando ao sol.

-x-x-

No ônibus me passou pela cabeça escrever um conto chamado "O enterro místico de A.". Seria uma alegoria bestinha em que representantes de todos os grupos signigicativos da humanidade -- quilombolas, palestinos, operários, anões -- se apresentariam no cemitério por admirar e identificar-se com meu amigo. (Os anões serviriam a um propósito dramático; o narrador os veria entrando no cemitério e ficaria temporariamente na expectativa de ver um lendário enterro de anão.) Depois apareceriam anjos para levar A pro Céu, o que lhe daria um tremendo susto. O conto terminaria com um grito estrondoso dado lá de cima -- "Caralho, Você existe!" --, naquela voz do A, e de algum modo eu teria de representar não só a voz como o "V" maiúsculo na fala dele, para que o narrador não tivesse dúvidas de Quem se tratava.

O péssimo argumento não combina com o que sinto hoje, mas é necessário que eu explique o que pretendia dizer com ele. Deve estar bastante evidente para quem me conhece que nossas maneiras de ver o mundo (a de A e a minha) são muito diferentes. No entanto, um dos melhores argumentos que já achei para a minha é ele. Se no fundo, no fundo, tudo é Amor -- a estrutura última das coisas, a vida de cada um, os sonhos secretos do Universo, o Deus parido de uma moça jovem --, e se esse Amor, longe de ser só um sentimentalismo, é uma postura ao mesmo tempo altiva, acolhedora e respeitosa, então A era uma demonstração prática da minha teoria, melhor que a que eu, teórico, seria capaz de apresentar por meus próprios méritos.

-x-x-

Esquecido o conto, voltei a olhar para fora do ônibus. É comum que eu passe a pensar semi-ceticamente depois de devaneios religiosos e desta vez resolvi me convencer de que, se olhasse para as coisas com bastante atenção, acharia muito de A nelas, não por "sincronicidade", mas porque essa fartura de interpretações é algo a que a realidade se dá meio que por acaso. Logo, logo, vieram as provas. De um lado, operários brigando e brincando no alto do andaime. Mais adiante, uma bandeira do Flamengo pendurada em uma varanda alta. Uma kombi abalroou o ônibus: tinha um adesivo escrito "É fácil me conhecer, difícil é me esquecer". Seus vidros eram fumê e não consegui ver o motorista, de quem fiquei com uma impressão fantasmagórica.

Veio-me a sensação que em mim sempre acompanha as notícas de morte. É como se ouvisse uma música bem dissonante no final, que maldosamente termina com o volume diminuindo, sem que a harmonia seja restituída a um centro estável. A dissonância se prolonga cada vez mais débil e mais funda nos ouvidos; no final, acaba se tornando parte da minha vida.

-x-x-

Saltei do ônibus a uns 300m do portão do cemitério. A lembrança do amigo comunista me dava a obrigação de prestar bastante atenção na favela mais adiante.

-x-x-

Cheguei ao São João Batista na hora em que haviam me dito que o enterro aconteceria, mas descobri que ele acabara 2h antes. Erro de comunicação. Fui ao túmulo mesmo assim, meio chateado mas sem saber bem por quê. Passei por longas vielas de jazigos decorados com anjos, Cristos ressucitados, Marias e figuras helênicas, tudo desgraçadamente sujo e velho. No meio daquilo, funcionários do cemitério falavam alto.

Segui para o túmulo, pedindo ajuda no meio do caminho a um senhor negro bem velho e com um sotaque quase bantu. Era outra coisa a que tinha que prestar bastante atenção e a parada fez com que algumas pessoas passassem à minha frente. Acabei chegando junto com elas ao túmulo. Das seis pessoas, três estavam com roupa de trabalho em escritório (seriam colegas do A?) e foram logo embora. Ficaram uma mulher e dois homens; um destes chorava copiosamente e esmurrava o túmulo.

As coroas de flores cobriam a lápide. Não dava para ver o nome do defunto nela e uma das coroas tinha uma faixa com o nome do A escrito errado. Passou pela cabeça a idéia boba e logo descartada de que talvez aquele não fosse meu amigo e tudo fosse um mal-entendido.

-x-x-

Quando resolvi cheguar mais perto do túmulo, o rapaz que chorava me abordou. Apresentou-se, me apertou a mão e me explicou que A morrera por "se achar espertão" e tomar uma trilha mais difícil na volta para casa, tendo sido achado morto um dia e meio depois. Disse que o A era um dos seus melhores amigos e padrinho de casamento, mas que eles não se falavam há três anos por conta de uma briga besta. Ele socava o granito da lápide, gritava o seu arrependimeento e dizia que tudo o que queria era um minuto a mais com o amigo para fazer as pazes. Fiquei na dúvida do que dizer, se é que devia dizer algo, e o sujeito começou a cantar o hino da Internacional Socialista.

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional...


Continuou por uns 10 segundos prá depois dizer, meio sem jeito e entre um soluço e outro, que "pô, esqueci".

A mulher do grupo, provavelmente a esposa do rapaz que chorava, resolveu consolá-lo dizendo que pelo menos A tinha morrido fazendo algo que lhe dava prazer, o que era privilégio de poucos. Era uma frase-chavão perfeitamente compreensível nas circunstâncias. O outro rapaz, até então calado, disse que trabalhava no mesmo ramo que A e que recebia deles ótimos conselhos sempre que pedia e que A realmene era fora de série.

Logo depois disso o grupo se despediu de mim. Abracei o chorão dizendo:

-- Cara, deixa o remorso prá lá e fica só com a saudade, que ela não tem jeito.

-x-x-

Sozinho ao lado do túmulo e resolvido a rezar, me abaixei e fechei os olhos. Fiquei ali algum tempo e me levantei sem saber se devia terminar de rezar, pensando em dizer mais um verso ou mais uma estrofe de oração, mas resolvi deixar isso para mais tarde.

Só então reparei na bela vista do ponto onde estava. De um lado havia a favela no fundo do cemitério. Do outro, o Morro Dona Marta e outra favela. No meio, o Corcovado só com o pico e o Cristo Redentor expostos. Olhei para o Cristo, mas logo resolvi olhar para as favelas, mais uma vez por causa do A. Depois disso a estátua foi encoberta pelas nuvens. Fechei os olhos por uns segundos, enxuguei-os e, olhando de novo pro Corcovado, vi a mão do Cristo para fora da névoa.

20 de mar. de 2006

Um sonho

(Só para tirar o mofo do blog.)

Foram no máximo uns dois minutos entre cochilar e acordar de novo. No meio disto, percebi que a minha alma estava solta dentro da minha cabeça. Podia me virar para um lado e para o outro dentro do meu crânio, oco e escuro, optando por olhar ou não através dos buracos dos olhos, iluminados desde fora por um sol que não se via. Do outro lado destas janelas, uma grama que se estendia ao longe e se encontrava com o céu; tudo em cores tão fortes que chegava a parecer um gráfico de computador.

O meu corpo voava e a grama passava rápida e sem atrito sob meus pés. O vôo parou e dois anjos de asas longas e pontudas desceram do céu e pousaram na minha frente. Os dois tinham cor de barro e tipo esguio. Eram praticamente imagens espelhadas um do outro e sua expressão facial era serena mas firme, como a de pinturas góticas. Cada um segurava uma espécie de alaúde ou violão, um de tamanho diferente do outro, e os cabos dos instrumentos quase se encontravam no espaço entre os anjos. Os anjos não se mexeram -- aliás, nem bateram as asas para descer do céu -- mas começaram a tocar uma música lenta que primeiro me soou melancólica e depois me deu a sensação de um cobertor numa noite fria. Percebi pelo som que um dos instrumentos era um violão, acompanhando; e o outro, era o quê?

-- Guitarra portuguesa! O anjo tá tocando guitarra portuguesa!

Foi o que falei para a minha mulher, não totalmente desperto mas subitamente me lembrando da presença dela. Ela disse "Tá" mas nem ligou, habituada a me ouvir falando em sonhos. Já eu não me esqueci mais das cenas: um par de anjos tocando fado, os olhos como janelas para a alma se debruçar.

22 de set. de 2005

Para que serve um blog que ninguém lê?

Para que o autor/dono se descubra um inconsciente semi-discípulo de Nietzsche ao ler seus próprios posts. Puta que pariu, esta história de confrontamento na religião é quase a vontade de poder.

Escrever faz a gente mudar de idéia. Neste caso, não totalmente.

16 de set. de 2005

Ah, sim

Foi por causa da seriedade da constatação do post anterior que deixei de me considerar católico por muito tempo. Agora tenho feito um pouquinho mais de força, com a ajuda de não ter mais de me preocupar com sexo antes do casamento.

Escolha e método

Há muito e muito tempo, quando eu ainda fazia cursinho de inglês, nosso professor propôs uma série de temas para debate. Um deles foi a necessidade de obediência na prática da religião. Parecia-me então uma verdade óbvia e evidente que cada um deveria ser livre para escolher e adaptar os ensinamentos das várias tradições religiosas, e que a obediência, sendo sinônimo de aceitação incondicional ou medo de errar, era uma bobagem fácil (ou no mínimo desnecessária).

Chocou-me, portanto, que uma moça (que na minha memória era uma morena bonita e bem arrumada com aquele cabelo escorrido de índia) defendesse a idéia de que era preciso obedecer a algo diferente da vontade individual. Seria justamente daí que viria a disciplina na prática da espiritualidade e na busca da verdade que deveria ser o objetivo desta prática, para a qual não haveria necessidade de Grandes Guias se não fosse difícil atingir o objetivo desejado. Sem a tal disciplina, trocar-se-ia este processo difícil pela simples satisfação pessoal e e auto-centrada de se fazer algo segundo os próprios desejos, algo que, na opinião dela, não merecia o nome de religião.

O que me deixou estarrecido nesta declaração foi que ela inverteu quase que instantaneamente o que eu pensava até então. De repente, a tradição já não era aquilo que se faz com o desleixo de quem só aceita. Muito pelo contrário: sendo a prática religiosa um condicionamento interno, o duelo da vontade com o objetivo "impessoal" era parte fundamental do jogo. E não demorou para eu descobrir que qualquer jugador deste peculiar esporte precisa antes de tudo de insistência, porque a luta é difícil; e honestidade consigo mesmo, porque sem ela o discípulo superestima seu sucesso, achando-se uma pessoa boa só porque um dia "decidiu" ser assim. A obediência total pode ser muito difícil ou talvez até não desejável, mas o fato é que religião sem confrontamento com a tradição é mais ou menos o mesmo que auto-ajuda.

O difícil explicar isto para os outros. Lembro-me bem de uma discussão numa aula de "O Homem e o Fenômeno Religioso" na PUC. Uma colega descreveu sua religiosidade como algo bem parecido com a maçaroca que a minha era até o tal debate na aula de inglês, e não resisti a perguntar:

-- Mas vem cá: você não acha que só escolhendo o que te agrada do Budismo, do Cristianismo, do New Age e de tudo o mais você só está fazendo uma coisa meio que para se agradar, e que é muito fácil viver assim?

Ou talvez não tenha dito isto desta maneira: lá na hora devo ter tido mais tato. Mas lembro-me bem da resposta dela:

-- Não [soando como "ué"]! Eu acho que eu sei escolher o que é melhor para mim!

E o olhar dela continuou bem firme no meu, a ponto de eu quase ouvir a continuação daquela resposta: "Você tá louco? Quer que eu seja um zumbi que sai por aí fazendo o que os outros dizem? Me deixa em paz!"

Talvez ela até fosse mesmo dotada da disciplina de que falei acima, mas enfim. O que sei é que não só esta idéia de que é preciso encarar a tradição com insistência e honestidade me parece cada vez mais fundamental para qualquer forma de aprendizado e de método. Não se aprende o mais importante a partir do auto-centrado desejo de conformar as coisas à visão pessoal, mas sim deixando e até torcendo para que as coisas imprimam sua marca no aprendiz. Ou melhor: toda a forma de conhecimento é antes de tudo um dar a cara a tapa, e as únicas mãos sempre por perto são as do próprio estudante.

7 de set. de 2005

Papos estranhos sempre vêm em três

Minha amiguinha C. me contou duas histórias que aconteceram com ela logo antes de ler o post anterior.

A primeira é a do motorista de táxi (sempre eles) que a levou da Gávea à Lapa e tentou convencê-la durante toda a viagem que toda a mulher carioca deveria tomar anti-depressivos na época da menstruação. Pois -- diria ele -- vai que uma mulher é assaltada justo quando está de TPM? Aí, ao invés de reagir como deve (isto é, dar o dinheiro ou bem ao bandido), ela pode se comportar de maneira imprevisível e botar em risco a própria vida! Não consigo imaginar história que demonstre melhor o problema da auto-medicação.

A outra história é a de um trocador de ônibus que resolveu falar com ela sobre religião. Imagino o papo mais ou menos assim.

-- Mas você tem Bíblia em casa?
-- Tenho.
-- Ah, mas deve ser católica, né?
-- Olha, eu acho que sim...
-- Ah, então você tem de ler a Bíblia pro-tes-taaaaan-te!
-- Ah é, é?
-- Éééééééé...Porque assim: a Bíblia católica puxa muito pro lado dos santos [!!!], dessas coisas da Igreja católica... A protestante, não: ela só mostra a verdade!

A verdade, é claro, veio acompanhada por um gesto da mão direita com a palma voltada para baixo, cortando o ar da esquerda para a direita.

-- Ah, tá...
-- Então, a Bíblia que eu tenho é essa, ó: Bíblia Tatatá-tatatá [insira seu nome predileto aqui]...
-- Tá bom...
-- Não, anota aí porque se não você vai esquecer.
-- [C. tira o papel da bolsa cheia] Tá, pode falar.
-- Bíblia Tatatá-tatatá... Anotou?