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10 de fev. de 2007

Dos percalços de um otário convicto

Não me recordo de ter feito antes o que fiz hoje na volta da praia. Uma mulher se aproximou de mim para pedir dinheiro e eu respondi com um “Não” enfático, acompanhado de um riso sarcástico.

Continuei andando com a minha mulher, mas virando a cabeça para acompanhar a pedinte com o olhar e esperando que ela me fitasse novamente. Quando isso aconteceu, disse no mesmo tom duro de antes e sem parar de caminhar:

--- Não dou porque outro dia você me pediu para comprar um nebulizador para seu filho, eu comprei, e depois a moça da loja me disse que você já tinha feito o mesmo pedido e sido atendida outras vezes...

Parei de falar sem propriamente terminar a história, quando o pescoço já me causava desconforto. Continuei rindo, mas senti que a minha mulher estava assustada e expliquei que era aquela a personagem da história que lhe contara alguns meses antes. Ela retrucou:

--- Mas eu não entendi porque você fez isso: falou com ela desse jeito prá quê, a essa altura?

Disse que não sabia. Foi aí que também me assustei.

-x-x-

O primeiro encontro com a pedinte aconteceu em outra passagem por Ipanema. Ela me interpelou com uma criança que ela disse estar doente no colo e pediu que eu comprasse comida para elas duas. Prestei muita atenção nas feições da moça: a pele bem negra e os olhos puxados eram (ou me pareceram) bem mais africanos do que a média do que se vê por aqui. Segui-a ouvindo a sua conversa, mas sem acompanhar toda a sua fala aos borbotões, que contava uma história tristemente previsível.

A certa altura a moça me disse que ficaria ainda mais grata se eu comprasse roupas para a criança, para que assim ela pudesse ir ao médico. Acatei o pedido e por isso caminhamos alguns metros na direção oposta. Quando passamos por uma loja de eletrodomésticos e ela emendou um pedido nos relatos:

-- Ah, mais melhor ainda sabe o que que seria, moço? É se a gente comprasse um nebulizador para ele, que aí ele num precisava ir pro hospital não, podia fazê em casa...

Concordei sem saber quanto o nebulizador custava. Entrei, escolhi um aparelho de preço intermediário e o levei pro caixa. Quando já estava pagando, algumas vendedoras da loja começaram a perguntar à moça “O que você tá fazendo aqui?”. Falei que ela estava comigo e outras apareceram dizendo “De novo?” sob as queixas da moça que me acompanhava. Entendi perfeitamente o que elas queriam me dizer, mas a gerente fez questão de não deixar dúvidas:

-- Só quero dizer pro senhor que ela esteve outras vezes, uma na semana passada, e fez outros fregueses comprarem nebulizadores para ela.

Olhava-me com um ar severo, cercada de vendedoras com o mesmo semblante. Sentia a cabeça como se fosse um restaurante cheio com muita gente conversando.

Prossegui com a compra e saí com a moça.

-- Esse pessoal, né não, fica falando, se metendo, como se num fosse coisa nossa, fosse a vida deles, né não? Olha, muito obrigado, que Deus lhe pague.

Devolvi a bênção e fui embora.

-x-x-

Por que fiz o que fiz? Em parte por causa da convicção interna despertada por outro episódio, da época em que ainda morava em Nova Iorque. Era uma noite normal e voltava com minha mulher para a casa. Um senhor veio nos vender bugingangas (uma bolsa, uma caixa, perfumes) contou-nos uma história que era quase perto de verossímil. Dizia-se soropositivo, recém-saído da prisão e ainda aguardava o seguro desemprego e o abrigo prometidos pelo Estado; enquanto isso, dormia na rua.

Resolvi dar-lhe o dinheiro correspondente a uma ou duas bugingangas e não levar nenhuma delas, como forma de ajudá-lo. Não foi uma decisão imediata e a mesma sensação de cabeça cheia de gente me acometeu, mas fui resgatado por uma decisão que se cristalizou em poucos segundos: mesmo que aquele senhor estivesse mentindo, eu estava gratuitamente disposto a tratá-lo como uma pessoa honesta. Sabia da minha própria experiência que às vezes as pessoas se enredam na mentira e com ela se acostumam a ponto da verdade parecer por demais laboriosa para seus objetivos. Também me lembrava de ocasiões em que me reaprumei graças à confiança e vista grossa que eu provavelmente não merecia. E para muito além da das minhas memórias havia também a minha empatia e o meu desejo (imperfeito, incompleto e nascido no medo de mil receios) de amar àquele senhor estranho. Ajudei através do que julgava compreender, em nome de tudo que eu jamais sequer conheceria.

-x-x-

A história com o senhor novaiorquino teve final parecido com a da pedinte carioca: um novo encontro alguns meses depois, um novo pedido de ajuda e uma resposta dura de minha parte. O que foi diferente hoje foi a minha raiva, que surpreendeu até a mim. Afinal, para quem se dispõe a ser otário, o ocorrido não deveria causar consternação, ainda que a moça em questão fosse obviamente uma profissional da exploração de otários (o jeito de falar rápido, mudando de idéia e conduzindo a conversa). O que me aconteceu, então?

Até onde consigo entender, eu senti duas raivas distintas. A primeira foi a do amor traído que inconscientemente se arroga virtudes, do esposo de se vinga da sua adúltera mulher jogando-a na cara a honestidade que ele manteve. Não é que eu esperasse idoneidade destas pessoas, mas no meio da minha decepção fiquei feliz por não viver (mais) com base em mentiras; pensar nisso me orgulhou e me protegeu da dor, ainda que de forma tacanha.

A outra raiva foi a de quem vê a sua criatura teórica se rebelar. Apesar da minha tentativa de não idealizar estas pessoas, eu quis que meu presente gratuito fosse um marco nas vidas da moça e do rapaz. Para isso acabei falseando-as e falseando a vida em geral. Não digo isso no sentido de me esquecer que “o ser humano é mau” ou coisa do tipo: sou otário, mas não idiota. Mas a maioria das ações boas e ruins que tomamos por aí tem toda a cara de murros em ponta de faca. Isto não exclui a esperança de que a lâmina um dia entorte, mas dificilmente isto acontecerá por uma ação ou fato isolados.

No fim, o que mais me impressionou nesta história é que eu sou menos capaz de ser otário manso do que pensava. Talvez meu destempero não seja totalmente ruim. Agora, escrevendo estas linhas e repensando o meu passado, estou certo de que é realmente melhor viver sem mentir, para além de todo e qualquer orgulho. Na meditação daonde tirei a convicção para ser otário, me esqueci de alguns berros que me ajudaram quase tanto quanto braços estendidos.

Que isso valha mais que a minha decepção com ela e comigo. Ou que não valha nada o que eu fiz, mas algo mais venha a resgatá-la.

10 de jan. de 2007

Seu Antônio Coutinho

Há alguns meses encontrei um homem caído na rua ao sair de um prédio. Ao seu lado, uma caixa de isopor dessas de vendedor de sorvete. Minha mulher e meu sogro, que me acompanhavam, foram chamar os porteiros enquanto eu me agachava e chegava perto do rosto do homem.

Era um senhor de cabelos grisalhos, barba por fazer e rosto muito magro. Chamei por ele e sua cabeça levantou-se alguns centímetros; os olhos e a boca abriram, mas só os olhos se fecharam quando a cabeça caiu alguns segundos depois. Já vira um infarte ao vivo e pensei estar diante do segundo, mas não. Em pouco tempo ele já estava balbuciando coisas e descobri que ele não sentia dor, mas fome. Pareceu envergonhado quando disse que não comia há três dias.

Meu sogro e minha mulher foram comprar comida. O sujeito recostou-se nas grades do edifício e respondia às minhas perguntas com alguma dificuldade, mas menos constrangido do que antes. Disse que estava fora de casa há três dias procurando um bico que lhe desse dinheiro para comprar picolés que por sua vez seriam vendidos na praia. O problema é que o bico não aparecia, ele não tinha dinheiro para voltar para casa em Itaipu e, mesmo que tivesse, lá lhe aguardavam uma mulher, dois filhos, cinco meses de fiado na quitanda e seis meses de aluguel atrasado. Como se não bastasse, tinham-no destratado num posto de gasolina das redondezas do lugar onde tinha caído; parara para descansar e pedir ajuda, mas fizeram piada e o expulsaram. Disse-me o seu Antônio que "depois se eu jogar um tijolo neles eles vão ver", mas arrependeu-se e falou que era direito quando eu respondi que isso só complicaria ainda mais a sua vida.

Minha mulher e meu sogro chegaram com pão, queijo, Toddynho e outras formas de amido, açúcar e gordura. Foi só começar a comer que o Seu Antônio melhorou de fisionomia. Deixamos R$ 50,00 e dissemos tchau, porque íamos jantar.

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O restaurante tinha uma varanda ao ar livre e foi ali que sentamos. Passei a maior parte do jantar olhando para a rua e dizendo que estava muito, mas muito arrependido de não ter oferecido uma ajuda mais significativa para o senhor. Pensei que, se ele aparecesse, eu me compromeria a dar-lhe uma "bolsa" mensal razoável por no mínimo uns 6 meses, a "organizar" a sua vida e a procurar emprego para ele. Lembrei da revista Ocas: não gosto da linha editorial mas achei que seria um emprego bom para ele. Pena que não adiantava pensar àquela altura do campeonato.

Já estava me preparando para uma vida de culpa quando o Seu Antônio passou sorrindo, lépido e fagueiro pela frente do restaurante. Pulei da cadeira, corri atrás dele e acabei assustando-o sem querer. Expus meu plano bem devagar e a reação dele foi um pouco estranha: parecia que ele tinha gostado da idéia, mas que o que eu falava era muito complicado para ele entender. Como nao tinha muito dinheiro e os caixas eletrônicos já estavam fechados, marquei um encontro com ele às 17h do dia seguinte para pagá-lo a primeira bolsa. Antes, comprei um cartão de telefone e dei-lhe meus números num pedaço de papel. Por algum motivo pensei em perguntar se ele sabia ler números ou letras; ele respondeu que não.

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Seu Antônio se atrasou uma hora para o encontro do dia seguinte, na frente do mesmo prédio da véspera. Estava de banho tomado, barba feita e roupa ajetadinha. Estendi-lhe um papel com todo o meu plano de ajuda detalhado e a recomendação de que, se precisasse conferir alguma coisa do nosso trato, que procurasse alguém de muita confiança e pedisse para ler esta folha. Em outro papel havia escrito uma lista de informações sobre igrejas e obras de caridade perto daonde ele disse morar, conseguidas durante o dia com a ajuda de amigos. Dei o dinheiro da bolsa, que disse ser uma vaquinha de meus colegas de trabalho (mentira: era todo meu). Ele o guardou, mas não foi embora: fomos caminhando e conversando.

Fiz algumas perguntas sobre a família dele. Aparentando constrangimento, ele respondeu:

-- Olha, você não vai ficar chateado não? É que eu tô separado da minha mulher há seis meses, que eu peguei ela com um bombeiro... E os filho, eles num são meu não, são do homem de antes.

Deixei passar sem deixar de notar que havia deixado passar. Sacudi a cabeça para espantar a sensação de senhor feudal, mas ele quis ser mais servo e piorar meu estado de espírito:

-- Olha, você vai gostar de mim! Eu sou gente boa, conto piada, sou alegre, trabalhador (sabe, fui trocador de ônibus)...

Paguei-lhe um lanche que ele fez questão de comer fora da lanchonete, talvez com vergonha de expôr a boca com meia dúzia de dentes. Fomos a uma igreja das redondezas, mas não chegamos a tempo de tentar arrumar uma das cestas básicas do dia. O seu Antônio cismou que um funcionário da igreja era conhecido seu da época em que vendia sorvete na praia.

Fora da igreja, perguntou-me se pretendia viajar. Falei que não e ele me contou que tinha tido um benfeitor naquele bairro, que parou de ajudá-lo dizendo que iria fazer uma viagem longa. Conversamos mais alguns minutos e nos despedimos.

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No dia seguinte eu já tinha convicção de que devia ter dado mais dinheiro para o cara. Esperava falar com ele alguns dias depois; de fato, nosso trato incluía ligações semanais dele com dia e hora marcados. Mas chegou o dia e ele não ligou. Será que não tinha entendido o plano?

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Quase uma semana depois o seu Antônio resolveu telefonar. Uma mulher falava ao seu lado e aparentemente queria pegar o telefone para falar comigo. Explicou-me que aquela era a sua credora na mercearia. Entre ele largar o elefone e ela pegar, ouvi trechos desconexos do que ele dizia -- "minha mulher", "mercearia" -- e da resposta dela -- "Falou/falo [...] mulher?"

A moça pegou o telefone e, com a voz impaciente, me explicou que era mulher do dono da mercearia, mas estava para se divorciar. Apesar de adorar o seu Antônio -- como, aliás, todos no bairro --, tinha que receber o pagamento da dívida porque o quase-ex-marido mais cedo ou mais tarde lhe cobraria aquilo. Sabia do nosso plano, mas parecia querer que eu lhe desse mais dinheiro imediatamente, para que ele quitasse a dívida logo. Fiquei incomodado e, para aliviar a pressão, aproveitei uma mentira anterior. Respondi que o dinheiro mensal combinado vinha de uma vaquinha, que até agora meus colegas tinham confiado em mim mesmo sem ver o seu Antônio, mas que parariam de fazê-lo se eu pedisse mais dinheiro tão rápido. Ela concordou e acabou se tranqüilizando com a minha promessa de cumprir o trato original. Então resolveu me contar do divórcio. Falei que era uma coisa triste; ela disse "Sabe que não?", empolgou-se e falou sem parar para respirar que era jovem e que a vida, assim, agora ela ia, assim, ia poder sair com os amigo e ficar mais, assim, assim, assim... Não sabia o que vinha daí e temi detalhes picantes, mas ela encerrou dizendo-se "livre!".

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Uns 10 dias depois eu fui à Praça XV para mais um encontro marcado com o seu Antônio. O objetivo era levá-lo à sede da Ocas, que eu já houvera contatado por telefone e que iria dar-lhe um emprego. É verdade que o futuro empregado nao tinha demonstrado ânimo com a oferta, mas eu torcia para que isto não nos causasse problemas.

Ao mesmo tempo, estava muito encafifado. Desde o iníco desta história havia várias pequenas inconsistências no papo do seu Antônio Coutinho. A maior parte não está escrita, mas uma que está é que ele se dizia analfabeto, incapaz de ler números e ex-trocador de ônibus. A conversa com a moça da mercearia também estava cheia de contradiçõezinhas. As frases entrecortadas que os ouvi dizer se juntaram na minha cabeça e me fizeram pensar que ela era a (ex-)mulher dele representando um personagem.

Estava grilado, muito grilado. Será que seu Antônio estava me armando uma cilada? Será que ele farejava a minha vontade de ajudar e a dose de culpa por não ajudar mais? Olhava para os lados ansioso, esperando alguma surpresa desagradável. Estava tão receoso que, já na Praça XV, respondi com mentiras e evasivas a um senhor que veio puxar conversa.

A surpresa desagradável veio. Resisti ao medo e esperei por uma hora e quarenta minutos, mas o seu Antônio não apareceu. De fato, ele nunca mais apareceu, nem para pegar as "bolsas" seguintes que eu lhe teria dado de bom grado.

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Até hoje não faço idéia do que aconteceu. Se seu Antônio queria me engrupir, por que desprezou as bolsas? Talvez ele seja meio tantã ou a fome lhe tenha feito mal aos miolos; consigo encontrar evidências disto na história, mas não tantas a ponto de me resolver. Ele também pode estar doente, ou morto, ou ter arrumado ajuda de outro lugar.

A hipótese em que penso mais é em certo sentido a mais triste. Será que ele simplesmente não conseguia cumprir com o plano apesar de entendê-lo? Isso pode parecer absurdo, mas ele realmente parecia viver num universo distante das estruturas de dia, hora, compromisso e planejamento da "vida séria"; tinha pensamentos amplos para certos assuntos e terrivelmente estreitos para outros. Em seu mundo os benfeitores às vezes apareciam, mas às vezes viajavam. Havia ingenuidade demais e um certo modo quase poético, embora desgraçadamente mal-sucedido, de viver ao Deus-dará.

Quis ajudá-lo, mas como é que se ajuda alguém assim? No fundo ele precisava de mais do que mais dinheiro: ele precisava de uma mãe. O problema é encontrar tempo, ânimo e principalmente coragem para ser mãe de um senhor desconhecido.

8 de jan. de 2007

A morte de AFP

Entrei no ônibus e sentei no fundo, ao lado de uma janela, e encostei a cabeça no vidro. Estava nublado e eu não conseguia ver os topos dos morros da Floresta da Tijuca, mas a luz baça que chegava às árvores preenchia os espaços entre elas, dourava-as, fazia-as saltar à vista com as copas infladas de claridade. Era como se a mata tivesse sido re-esculpida para realçar a delicadeza de cada galho se ramificando e afinando até chegar a um nada na ponta.

Lembrei da minha infância e de como me divertia olhar as coisas de dentro do carro em movimento: as árvores, uma mais a frente e parecendo andar mais rápido que a outra; a placa por detrás de outra que depois se exibe; os pedestres, conversando agitados, caminhando para trás; as casas de que se vê um pouco do interior, meio misteriosas e às vezes bonitas. Era um momento singelo e quase feliz, mas eu estava a caminho do Cemitério São João Batista para o enterro do meu amigo A.

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Meu amigo A era flamenguista, trotskista, idealista, membro do PSTU, bom de garfo, bom leitor, bem humorado, de opiniões seguras, leal. Se eu escrevesse a história da vida dele, o desfecho seria uma morte causada por uma destas características, nobre ou no mínimo bastante pitoresca, que chegasse a parecer melhor do que as vidas dos que ficam. Mas a morte de A foi quase indigna do personagem: sei que ele gostava muito do off-road, mas um acidente de carro não era o jeito certo de concluir a trama.

A notícia chegou a mim via Internet e à minha mulher pelos meus gritos logo depois. Fiquei bastante tempo perdido, preenchido por uma água negra, parada e fétida. Mas existe o mundo do Lado de Fora (o Lado de Fora físico e metafísico), que é daonde realmente me vem a paz. Ainda no ônibus eu não conseguia pensar direito nas coisas, mas pelo menos a alma já estava secando ao sol.

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No ônibus me passou pela cabeça escrever um conto chamado "O enterro místico de A.". Seria uma alegoria bestinha em que representantes de todos os grupos signigicativos da humanidade -- quilombolas, palestinos, operários, anões -- se apresentariam no cemitério por admirar e identificar-se com meu amigo. (Os anões serviriam a um propósito dramático; o narrador os veria entrando no cemitério e ficaria temporariamente na expectativa de ver um lendário enterro de anão.) Depois apareceriam anjos para levar A pro Céu, o que lhe daria um tremendo susto. O conto terminaria com um grito estrondoso dado lá de cima -- "Caralho, Você existe!" --, naquela voz do A, e de algum modo eu teria de representar não só a voz como o "V" maiúsculo na fala dele, para que o narrador não tivesse dúvidas de Quem se tratava.

O péssimo argumento não combina com o que sinto hoje, mas é necessário que eu explique o que pretendia dizer com ele. Deve estar bastante evidente para quem me conhece que nossas maneiras de ver o mundo (a de A e a minha) são muito diferentes. No entanto, um dos melhores argumentos que já achei para a minha é ele. Se no fundo, no fundo, tudo é Amor -- a estrutura última das coisas, a vida de cada um, os sonhos secretos do Universo, o Deus parido de uma moça jovem --, e se esse Amor, longe de ser só um sentimentalismo, é uma postura ao mesmo tempo altiva, acolhedora e respeitosa, então A era uma demonstração prática da minha teoria, melhor que a que eu, teórico, seria capaz de apresentar por meus próprios méritos.

-x-x-

Esquecido o conto, voltei a olhar para fora do ônibus. É comum que eu passe a pensar semi-ceticamente depois de devaneios religiosos e desta vez resolvi me convencer de que, se olhasse para as coisas com bastante atenção, acharia muito de A nelas, não por "sincronicidade", mas porque essa fartura de interpretações é algo a que a realidade se dá meio que por acaso. Logo, logo, vieram as provas. De um lado, operários brigando e brincando no alto do andaime. Mais adiante, uma bandeira do Flamengo pendurada em uma varanda alta. Uma kombi abalroou o ônibus: tinha um adesivo escrito "É fácil me conhecer, difícil é me esquecer". Seus vidros eram fumê e não consegui ver o motorista, de quem fiquei com uma impressão fantasmagórica.

Veio-me a sensação que em mim sempre acompanha as notícas de morte. É como se ouvisse uma música bem dissonante no final, que maldosamente termina com o volume diminuindo, sem que a harmonia seja restituída a um centro estável. A dissonância se prolonga cada vez mais débil e mais funda nos ouvidos; no final, acaba se tornando parte da minha vida.

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Saltei do ônibus a uns 300m do portão do cemitério. A lembrança do amigo comunista me dava a obrigação de prestar bastante atenção na favela mais adiante.

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Cheguei ao São João Batista na hora em que haviam me dito que o enterro aconteceria, mas descobri que ele acabara 2h antes. Erro de comunicação. Fui ao túmulo mesmo assim, meio chateado mas sem saber bem por quê. Passei por longas vielas de jazigos decorados com anjos, Cristos ressucitados, Marias e figuras helênicas, tudo desgraçadamente sujo e velho. No meio daquilo, funcionários do cemitério falavam alto.

Segui para o túmulo, pedindo ajuda no meio do caminho a um senhor negro bem velho e com um sotaque quase bantu. Era outra coisa a que tinha que prestar bastante atenção e a parada fez com que algumas pessoas passassem à minha frente. Acabei chegando junto com elas ao túmulo. Das seis pessoas, três estavam com roupa de trabalho em escritório (seriam colegas do A?) e foram logo embora. Ficaram uma mulher e dois homens; um destes chorava copiosamente e esmurrava o túmulo.

As coroas de flores cobriam a lápide. Não dava para ver o nome do defunto nela e uma das coroas tinha uma faixa com o nome do A escrito errado. Passou pela cabeça a idéia boba e logo descartada de que talvez aquele não fosse meu amigo e tudo fosse um mal-entendido.

-x-x-

Quando resolvi cheguar mais perto do túmulo, o rapaz que chorava me abordou. Apresentou-se, me apertou a mão e me explicou que A morrera por "se achar espertão" e tomar uma trilha mais difícil na volta para casa, tendo sido achado morto um dia e meio depois. Disse que o A era um dos seus melhores amigos e padrinho de casamento, mas que eles não se falavam há três anos por conta de uma briga besta. Ele socava o granito da lápide, gritava o seu arrependimeento e dizia que tudo o que queria era um minuto a mais com o amigo para fazer as pazes. Fiquei na dúvida do que dizer, se é que devia dizer algo, e o sujeito começou a cantar o hino da Internacional Socialista.

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional...


Continuou por uns 10 segundos prá depois dizer, meio sem jeito e entre um soluço e outro, que "pô, esqueci".

A mulher do grupo, provavelmente a esposa do rapaz que chorava, resolveu consolá-lo dizendo que pelo menos A tinha morrido fazendo algo que lhe dava prazer, o que era privilégio de poucos. Era uma frase-chavão perfeitamente compreensível nas circunstâncias. O outro rapaz, até então calado, disse que trabalhava no mesmo ramo que A e que recebia deles ótimos conselhos sempre que pedia e que A realmene era fora de série.

Logo depois disso o grupo se despediu de mim. Abracei o chorão dizendo:

-- Cara, deixa o remorso prá lá e fica só com a saudade, que ela não tem jeito.

-x-x-

Sozinho ao lado do túmulo e resolvido a rezar, me abaixei e fechei os olhos. Fiquei ali algum tempo e me levantei sem saber se devia terminar de rezar, pensando em dizer mais um verso ou mais uma estrofe de oração, mas resolvi deixar isso para mais tarde.

Só então reparei na bela vista do ponto onde estava. De um lado havia a favela no fundo do cemitério. Do outro, o Morro Dona Marta e outra favela. No meio, o Corcovado só com o pico e o Cristo Redentor expostos. Olhei para o Cristo, mas logo resolvi olhar para as favelas, mais uma vez por causa do A. Depois disso a estátua foi encoberta pelas nuvens. Fechei os olhos por uns segundos, enxuguei-os e, olhando de novo pro Corcovado, vi a mão do Cristo para fora da névoa.

9 de nov. de 2005

Nova Iorque - parte 2

Um dia eu estava na fila para ir ao cinema e um sujeito veio me pedir dinheiro. Sim, dinheiro. Sim, isto acontece aqui, e -- pasmem! -- o cara parecia o Riquinho Rico com quarenta anos de vida e vinte e oito de bebedeira. Do longo monólogo do pedinte só entendi alguns trechos desconexos (a fala dele também era de quem bebia há vinte e oito anos), mas deles deduzi que ele estava com fome e frio; que ele não tinha dinheiro; e que ele fora expulso do seu abrigo porque tinham matado o seu irmão e ele tentara bater no assassino.

Talvez o leitor tenha treino específico ou até mesmo conselhos infalíveis para uma situação destas. Talvez as crianças nova-iorquinas sejam treinadas desde cedo para lidar com este tipo de situação ("Finja-se de morto e deixe que ele te fareje à vontade"). Da minha parte, eu não tinha muita idéia do que fazer. Mas não demorou muito e minha mão já tinha puxado o dinheiro da carteira, para espanto dos dois amigos que me acompanhavam e que tentavam duramente ignorar o pobre Riquinho. Ele, por sua vez, não se fez de rogado, pegou a nota, deu meia-volta e foi...

Não: ele parou depois de uns dez passos e voltou para perto de mim, o braço trêmulo esticado para a frente, a nota enrolada contra o meu peito.

--- Toma esse dinheiro de volta, porque se não eu vou levá-lo ao traficante e comprar crack!

O que faria o leitor experiente neste momento? Será que até mesmo o nova-iorquino adestrado tremeria ("Ih, acho que ele percebeu que estou respeirando!")? Eu quase ri da situação --- não me pergunte por quê --- e disse que não. Pedi e pedi e pedi que ele ficasse com a grana; disse várias vezes "God bless you" ou alguma outra coisa assim; tomei a mão dele e fechei-a em volta daquele um dólar (ou cinco dólares, sei lá) que eu tinha dado. Depois de algum tempo o sujeito ficou quieto, me olhou no fundo dos olhos de um jeito muito estranho, e foi-se embora.

Só agora no momento em que escrevo este texto é que este olhar final me parece fazer sentido. Foi decepção. Ele teve um minuto de lucidez, e desapontou-se porque eu não entendi que ele dificilmente teria outro.

7 de set. de 2005

Papos estranhos sempre vêm em três

Minha amiguinha C. me contou duas histórias que aconteceram com ela logo antes de ler o post anterior.

A primeira é a do motorista de táxi (sempre eles) que a levou da Gávea à Lapa e tentou convencê-la durante toda a viagem que toda a mulher carioca deveria tomar anti-depressivos na época da menstruação. Pois -- diria ele -- vai que uma mulher é assaltada justo quando está de TPM? Aí, ao invés de reagir como deve (isto é, dar o dinheiro ou bem ao bandido), ela pode se comportar de maneira imprevisível e botar em risco a própria vida! Não consigo imaginar história que demonstre melhor o problema da auto-medicação.

A outra história é a de um trocador de ônibus que resolveu falar com ela sobre religião. Imagino o papo mais ou menos assim.

-- Mas você tem Bíblia em casa?
-- Tenho.
-- Ah, mas deve ser católica, né?
-- Olha, eu acho que sim...
-- Ah, então você tem de ler a Bíblia pro-tes-taaaaan-te!
-- Ah é, é?
-- Éééééééé...Porque assim: a Bíblia católica puxa muito pro lado dos santos [!!!], dessas coisas da Igreja católica... A protestante, não: ela só mostra a verdade!

A verdade, é claro, veio acompanhada por um gesto da mão direita com a palma voltada para baixo, cortando o ar da esquerda para a direita.

-- Ah, tá...
-- Então, a Bíblia que eu tenho é essa, ó: Bíblia Tatatá-tatatá [insira seu nome predileto aqui]...
-- Tá bom...
-- Não, anota aí porque se não você vai esquecer.
-- [C. tira o papel da bolsa cheia] Tá, pode falar.
-- Bíblia Tatatá-tatatá... Anotou?

25 de ago. de 2005

No meu entender

Há uma intimidade instantânea que se forma entre brasileiros que se encontram fora do país. Quando os brasileiros em questão são da mesma cidade, ou ainda por cima do mesmo bairro, aí então é quase como se fossem velhos amigos. Um encontro deste tipo ficou tão marcado na minha memória que mesmo agora, já quase quatro anos depois dele, ainda consigo reproduzir os seus momentos mais importantes.

O interlocutor em questão dirigia o táxi que peguei para ir a Manhattan sem enfrentar o metrô (eu morava no Queens e tinha operado o joelho há menos de três semanas). Não demorou muito para que o sujeito, que tinha uns 40 anos, decobrisse que eu não só era brasileiro, como também carioca e tijucano. Assim sendo, sentiu-se totalmente a vontade e resolveu falar de sua namorada.

-- Pô, levei a minha namorada prá praia com a irmã dela há duas semanas [em setembro], as duas chegaram lá e pá, pá, pá, rapidinho elas disseram: "Ai, quero ir embora! Tá frio!" Pô, as mulher são gaúcha -- tá me compreendendo? -- tão acostumadas com o frio e vão falar "Ah, tá um ventinho" ? Fala sério, parecem umas doentes!

Eu ainda sorria (sem vontade) quando ele emendou:

-- Ah, mas gaúcha, assim -- entendeu? -- é que nem paulista, paranaense ... Todos esses, a gente respeita. Argentino também -- a gente sacaneia, mas é como irmão, assim -- mas ridículos mesmo são estes mineiros que ficam por aí, assim todo empinadinhos, andando com camisa do Atlético escrito "Galo"! Vê se pode um negócio desses!

Aqui cabe uma importante observação a respeito da minha personalidade. É parte da minha constituição psíquica uma suprema incapacidade para reagir de forma veemente às grandes merdas que ouço por aí (exceto pelas realmente GRANDES). Isto significa, em termos práticos, que meu comportamento para com o taxista sofreu poucas alterações em razão das palavras acima. É inevitável que mesmo eu me ache um tanto quanto covarde ao ouvir uma barbaridade como a que ele disse e ser incapaz de respondê-la. Por outro lado, minha reação (ou melhor, não-reação) é adequada na medida em que me permite a observação do ser humano "em estado puro" ou "natural". Um observador de pássaros não pode impedir uma águia de comer um esquilinho; sacaram a analogia?

Pois então continuemos com a conversa, que a esta altura estava mais para monólogo.

-- O foda mermo são esses chicanos, assim... A filha da minha namorada tá namorando um equatoriano! Éééééé... Agora me diga, meu amigo: Equador, o que este país representa pro mundo? O que de importante na história da humanidade aconteceu lá? Que invenções boas, que músicas já saíram de lá? O pior de tudo é que estes mineiros chegam aqui e ao invés de ficar amigo dos outros brasileiros, não: vai é andar com esse pessoal, tá me compreendendo? Fica falando a língua deles e aí eu digo: "Isso é falta de educação! Tu não sabe nem falar a tua língua direito, quer falar espanhol?" Porque, sabe, no meu entender o espanhol é uma língua errada.

-- O que? -- perguntei.

-- Errada, uma língua errada. É o português -- tá me entendendo? -- falando errado! Quer dizer, assim, ó: o espanhol da Espanha, tudo bem, mas estes caras aí, pô, faça-me o favor! Mas então: os mineiros fazem esforço para aprender e fica tudo naquela de "puerta", "feijón"... Então o que eu falo para quem quer aprender espanhol, inglês é: arruma uma namorada da língua, tá me entendendo? Por-que_é-na-caaaaa-ma [musiquinha aproximada dos porquês categóricos: dó-ré-dó-lááááááá-dó] que se aprende a falar a língua. A mulher chega ali no seu ouvidinho e diz "Comi rier, I loviú..."

A fala dele foi interrompida pelo meu riso, a que ele correspondeu rindo também. Alguém fora do carro juraria que nossos risos estavam na mesma sintonia.

A conversa ficou morna por um tempinho depois do riso, mas em algum momento o taxista voltou a falar com a sua impressionante convicção.

-- Estás aqui há quanto tempo?
-- Um ano -- respondi (era 2001).
-- Achas as mulheres daqui tão bonitas quanto as lá do Rio?
-- Em geral, não.
-- Então é o que eu digo: Nova Iorque é a cidade das empregadinhas domésticas!
-- Hã?
-- Empregadinhas domésticas! As mulheres aqui, entendeu, não tem grana prá se tratar, nem tempo. Porque é a grana [dó-ré-dó-lááááááá-dó] que faz a mulher ficar bonita: comprar um vestidinho legal, fazer cabelo e unha, dar uma malhada... Aqui as mulheres não tem grana prá se produzir!

Nesta hora tive que responder. Argumentei que as mulheres que se produziam freqüentavam lugares diferentes daqueles a que íamos (ele concordou) e até teria continuado, não fosse o táxi ter chegado ao destino.

-- Valeu, irmão! Um abração!

Foi só ele dizer isso que eu senti uma súbita vontade de transcrever o papo na Internet. O lado benévolo deste blog começava a germinar...